Hino ao senhor do Bonfim cantado por Caetano, Gil, Betânia e Gal
IAIÁ
Minha Iaiá, se ligue! É lavagem do Bonfim e verão na Bahia
Baixei todos os meus Santos do altar, agora fia, o coro come!
Sou um vulcão em plena erupção, não fique triste não, sorria
E quem mandou me liberar? Agora é tarde! É tome e tome...
Aff... Nem te conto: da praia de Jauá até a praia da Ribeira
É cada piriguete de fio dental, valha-me Senhor do Bonfim!
Vai se retar? Se rete não! Eu tô comendo todas pelas beiras,
Imagine? Imaginou, foi? Oi que porreta! Todas elas afim...
Ah, eu pinto o sete entregue aos braços das moças retadas
E na ponta do Humaitá uma lua traíra me faz lembrar de ti
Dou caruara e os cambaus, tremo sob esta noite aveludada
Já que me és um oceano de desejos desaguando em mim...
Tô pirado fia, tô na gandaia, tô na benção do Olodum, tô no pelô
Meu coração rastafári explode no bar do Reggae, teu olhar de sol
Na miragem queima minha pele morena e ai eu sou todinho amor
Os desejos aguçam, me consomem e sabes como fico... Ó paí, ó!
O que faço? Ao meu lado tem uma moça com os seios palpitando.
Fia, sempre fui desejos, em tua pele escorro sob lençóis de flores.
Ela, a moça de negros olhos de ônix nua no leito vai se revelando,
Por teu querer, sou mar de fogo convertido no venal dos amores...
-Como estou? -Mainha, lenhado! As donas moças não dão sossego
Elas fazem procissão para Jauá, aproveitam, conhecem minha rede
Tô doidim, doidim! Não sei se vou agüentar não, ore por teu nego
Omôpai! Até as turistas estão vindo ao pote com muita sede...
Piripicado, é na flor dos sentimentos que envio notícias minhas
É que sou o Negão do Olodum na cobiça curtindo aquele som
Do samba-reggae com cada negona que me valha Deus! Ah fia
Elas e eu, a noite e o mar, os uis e os ais, vixe! Tudo é tão bom...
ZéCorró
Ô meu Senhor do Bonfim desse jeito eu vou bater a biela! kkkkkkkk
TRADUÇÃO DO BAIANÊS
Minha Iaiá – Meu amor, meu desejo.
Oi, se ligue – Olhe, fique atento (a).
Baixar os Santos do altar – Sair sem compromisso, sair para festas, sair para namorar.
Agora Fia – Agora mulher.
O coro come – Tudo acontece.
É tome e tome – Fazer amor várias vezes.
Piriguete – Mulher a fim de namorar, de fazer amor e nem sempre mulher da vida.
Fio dental – Maiô devasso, apenas uma tira de pano.
Se retar – Se zangar, se aborrecer.
Comer pelas beiras – Conquistar uma mulher aos poucos para levar para a cama.
Jogo duro – Sem brincadeira, a sério.
Pintar o sete – Fazer tudo.
Moças retadas – Mulheres danadas, mulheres que namoram muito.
Ponta do Humaitá – Um dos lugares mais bonito de Salvador, Cidade Baixa.
Lua Traíra – Lua traidora.
Dar caruara e os cambaus – Ficar de perna mole, bambo e muito mais.
Tô – Estou.
Tô pirado – Estou doido.
Tô na gandaia – Estou solto, sem compromisso, em todas as festas.
Tô na benção do Olodum – Benção do Olodum festa que movimento o Pelourinho todas as terças feira o ano inteiro em que se vai muita gente para dançar samba-reggae e paquerar.
Tô no Pelô – Estou no Pelourinho.
Bar do Reggae – Bar do Pelourinho onde só se toca reggae e vende o famoso cravinho (bebida alcoólica feita de cravo) e a intelectualidade baiana se encontra para um papo descontraído.
E tudo, agora, exulta. A primavera e a flor...
O coração absorve funde tudo num só afago.
Ah, esse querer, porque nascestes e és amor
Fluindo em chamas como aspiração do âmago...
Quero saciar minha sede seguindo a tua estrada
Mas, diga-me: Em qual coração anda o teu coração
Ou envio o meu coração ao Santuário de Fátima
E dessa velada angústia espero a tua revelação?
No entanto, estás absorta, não ouço tua voz! Oh, flor
É que sonho encontrar-te em plena solitude, o amar...
Mar azul, desejos, toques e essa luz peregrina do amor
Que se acende num canto, qualquer canto, do meu olhar!
Em mim, tudo cintila... O amor, a paixão! E sem medos
Tombarei imerso nas íris dos teus olhos de luas acesas
E... Guardarei o meu coração por entre os teus dedos
Para que percas o medo e, cristalina, o amor te veja...
Lúcida, sem manto, perpetuando o róseo azul da paixão
Em que a minha alma ardente há de sentir-te... Embora,
Nesses versos pulse o chamamento... O meu coração
Não finge a dor, nem o sonho... A solitude sopra lá fora!
Pássaros de jade sobrevoam a cidade de Belém
Reis Magos anunciam o nascimento dos azuis.
Nos alagados, Menino Jesus, corre pelas pontes
Em verdade, transmudado em pétalas de luz...
E, dentro da noite, esplende uma luz peregrina,
Nas pontes os olhares de perpétua esperança
Molduram o cenário do céu que jamais termina
E os festejos natalinos fogem, não alcançam...
Na mesa de Natal o tom mágico dos fifós acesos
Verbera no fogareiro em brasa da ceia natalina.
Gatos escalpelados... Churrasquinhos disputados
Sob a fome no finismundo dessa parcela divina...
No balança mais não caí estrelas hidráulicas
Piscam sobre caibros sustentando as pontes
Que balançam ao Deus dará da noite natalina
Em pleno frenesi das asas de todos os ventos...
Pela manhã, o sol chega e se joga das pontes
Submergindo nas poças da maré lentamente...
Valei Menino Jesus! Comida para peixe baiacu,
E nenhum presente para crianças inocentes!
Ó, crianças, correm pelos pontilhões carcomidos
Catando raios de sol e lua para clarear dia e noite
Que te virão em sudários nas dores que deságuam
Todos os desejos do natal batendo como açoites...