segunda-feira, agosto 21, 2006

Alagados

Aos amigos de Infância
In memorium: Valtemir, Vando Bandolo, Gilson Caruru,
Toinho Magriça, Carlinhos Negão e Mario Nagô.

Estes versos
são memórias e sonhos
da maré como lembrança
nos desejos da infância
vivida nas palafitas...
De pés descalços
correndo pelas pontes,
catando raios de sol
nas asas de um beija-flor!
Meu coração tinha enredos:
melancolia e fantasias
palpitavam como folias
e desfilavam sem alegorias...

À noite,
os momentos eram
infinitos: um fifó aceso
espantando a escuridão,
gatos lânguidos esfomeados,
ratos correndo dos algozes
e tamancos rachados
fugindo da leptospirose...
O tempo à noite
sempre se estendia,
eu tentava empurrá-lo
com as mãos, pura agonia!
Ele teimava em desfilar
entre os dedos, lentamente...
Segundos, minutos, horas e dias,
parava o tempo!

Uma Ave Maria e um Pai Nosso
para amenizar o sofrimento!

Pela fresta,
via-se as últimas gotas
de estrelas trêmulas
circulando sobre tábuas
podres sobrepostas
e esqueletos de caibros
sob a lua que ludibriava os telhados...

O dia
florescia na enchente,
atiçada pela maré de março.
Em cada barraco, olhos velados
retiravam o que tinham
e o que não tinham, sufoco!
O povo dos alagados
recorria a todos os santos
sob a luz de um sol minguado...

Correi marezeiros!

Há nas pontes,
dependurados e sombreados,
desejos da vida, sangue em lágrimas,
trapos velhos e pinicos furados
rasgando o ventre dos sonhos,
agora, macerados!
Bocas de caranguejos, asas de morcegos
e nenhuma flor como desejo...

A maré cheia
nos convidava ao mergulho.
Crianças davam caídas,
era o prazer do corpo na água,
o debater de braços e pernas,
nadar! Ingenuidade da flor idade...
Na borda do prazer,
a cilada montava o cenário
entre estacas, lixos e galhos.
O perigo era fatal... Tarde demais!
No azul, um sol de tempestades.
A morte é crua, a felicidade é fugaz,
na adversidade mais um que se vai...
Erguia-se um silêncio!
Havia uma alma desesperada,
em fuga, pedia a extrema-unção.
A tarde uivava, a dor se curvava
e nenhum padre, nenhuma benção,
mas a noite te virá em orações!
Naqueles momentos,
a maré cumpria a sua sina.
Vestia-se de cinza
e nos desespero das lágrimas
uma garoa fina!

Mas, não sei, era paradoxal!
Pratos vazios, tripas em revoluções,
urubus, cachorros e ratos
lutavam por comidas no beira mangue...
Siris magros e mariscos aferventados,
crianças amareladas exangues.
O prato se repartia, mercúrio disputado,
enquanto, lombrigas faziam greve de fome!

Sob um céu de jade,
natal chegava
com luas estreladas!
Nos olhares, quanta alegria,
escondendo a dor, a melancolia...
Os barracos eram enfeitados,
nos pisos de tábuas carcomidas
a areia branca dava o toque mágico,
nos alagados, enfim, tinha vida!
Nos jarros de barro,
galhos de pitanga e espadas de Ogum,
folhas de arruda presas nas portas,
sal grosso nos telhados e alfazema
para espantar os maus-olhados,
gatos pretos ludibriados...
A noite era o olhar e viria em clarões!
Nas portas, nenhum tamanco, nenhum chinelo
e pela manhã, nem ao menos uma bola, uma boneca!
Papai Noel nunca vinha, disfarçava, enganava...
No fundo de nós,
uns olhos de tormentos
torturados por natais iguais,
à procura de manhãs desiguais!

Valei-nos, Jesus menino!
Lembrai dos vossos pequeninos,
em vossas mãos, os nossos destinos!

O Sibarita.


5 comentários:

Sabrina disse...

Adorei os versos...
Boa tarde!
Tudo de bom p/ ti
Beijos

Bel disse...

As memórias sempre as memórias.
bjinhos gostei

Sabrina disse...

Obrigada vc por retribuir a visita de forma tão calorosa. Que bom que tb curte música mineira da melhor qualidade. O Blog está recém inaugurado. Vamos trocar comentários!
Grande Beijo
Sabrina

Carla disse...

Gostei do espaço, agradeço a visita que retribuo.
Bjx

Carla disse...

Passei por aki novamente e aproveito para deixar votos de bom fim de semana.
Bjx